Aventura no deserto da Síria – Parte 2

Continuação do texto Aventura no deserto da Síria

 

 

Portão Dura Europos
Portão Dura Europos

Após toda a aventura e perrengue para chegarmos nas ruínas, caminhamos por aproximadamente 15 minutos no deserto e avistamos a entrada delas e agora um outro problema surgia, o local estava fechado! Pensamos, o que fazer agora? Ao olhar em volta notamos que tinham mais pessoas perto da gente e fomos descobrir quem eram. Eram três amigas viajando juntas, uma Belga e duas da Republica Checa que também não tinham conseguido entrar e, após alguns instantes nos conhecendo e discutindo o que poderíamos fazer, resolvemos pular o portão que não era tão alto, e invadir as ruínas. Apenas deixamos nossas mochilas no meio do nada, agrupadas do lado de fora já que o local era tão isolado que não conseguiríamos imaginar ninguém passando e pegando as mochilas, e pulamos o portão.

Finalmente estávamos caminhando nas ruínas e o prazer de estar lá era ainda maior devido ao desafio. Um lugar muito interessante, mas as ruínas eram tão antigas que mal dava pra entender o local, a não ser por algumas poucas placas que encontrávamos no caminho. Após uns 20 minutos surge um homem de moto, a primeira pessoa sem ser nós turistas que vimos naquele local, passando literalmente no meio das ruínas e nós ficamos muito assustados, afinal, tínhamos acabado de invadir um patrimônio público no meio da Síria.

Passado o stress inicial, tentamos explicar para o guarda que éramos turistas, que era a nossa única chance de conhecer aquele local e que como não achamos ninguém para cobrar, não resistimos e invadimos. Para a nossa surpresa, ele se sensibilizou com a nossa situação e apenas cobrou a entrada, e ainda por cima apenas meia entrada, cerca de US$0,50, acreditem!! Nos deu as entradas e se foi em sua moto, sumindo de vista rapidamente.

Apreciando a beleza das ruínas finalmente encontro o rio que foi o motivo inicial para eu ter estendido a minha viagem, posando ali, logo atrás das ruínas em baixo de um barranco, formando uma bela paisagem, a areia do deserto e um rio cercado de verde logo em frente.

Rio Eufrates

Eu rapidamente digo, influenciado também pelo calor infernal daquele lugar, que queria nadar no rio. O francês logo adere a minha ideia e uma das checas também resolve ir. Nadando no rio EufratesDescemos o barranco, nos três, e eu pensando se era uma boa ideia entrar no rio e como faríamos já que não tínhamos roupas de banho. A minha pergunta é respondida rapidamente já que a checa se despe e pula no rio sem vergonha alguma. Ok, era a única opção, então eu e o francês fizemos o mesmo. A situação era perfeita, estávamos nadando sem roupa em um país muçulmano e bastante conservador, ainda bem que não tinha ninguém no local para ver e nem quero pensar no que aconteceria se algum local nos encontrasse daquele jeito! Nadamos um pouco e resolvemos sair. O Calor era tanto e estava tão seco que já podíamos vestir nossas roupas e nos sentir praticamente secos.

 

Hora de partir, e agora em cinco pessoas, caminhamos de volta para a estrada. Paramos na estrada, mas e agora, como fazer para voltar? Descobrimos durante nossa visita na ruína que aquelas meninas sempre viajaram de carona e resolvemos fazer o mesmo, apenas fazer sinal de carona para todos os que passassem na estrada.

Após alguns instantes um caminhão para e faz sinal para subirmos, nós perguntamos ao motorista se ele iria para Deyr az-Zawr no que ele com a cabeça faz sinal de positivo. Eu, uma das checas e uma belga rapidamente subimos no caminhão, que carregava areia (sempre penso, porque um caminhão carregaria areia no deserto? Mas não sei detalhes daquela areia ou da utilização) e o francês e a checa remanescente ficam pendurados enquanto o caminhão começa a partir. Começamos a gritar para o motorista parar e quando ele brecou, uma pequena caminhonete parou atrás do caminhão e ofereceu carona aos dois.

Em cima do caminhãoFicamos nós três no caminhão de areia e os outros seguiram na caminhonete. A pergunta rapidamente surge, como vamos encontrar os dois? Ninguém tinha telefone e naquela época nada de smartphones, fora que naquela época WiFi naquela região do mundo deveria ser algo muito raro. Pronto, mais uma situação complicada. Eu digo para irmos para o primeiro hotel barato que tiver no guia de viagens já que o francês está com o mesmo guia que eu, e penso que esse seria o raciocínio dele. Agora com todos mais tranquilos, apenas apreciávamos um lindo por do sol na areia, de cima de um caminhão quando uma das meninas me conta que elas não tinham pego carona na Síria até então porque tinham um pouco de medo e que jamais pegariam a noite, mas como eu estava confiante elas se sentiram seguras. Mal sabiam que eu não tinha ideia do que estava fazendo e até então só estava tranquilo com aquilo porque pensei que pra elas era comum.

Seguimos por alguns quilômetros quando o caminhão para em um cruzamento no meio do nada e pede para descer. Nos assustados e sem entender nada, apenas obedecemos o motorista. Ele aponta para uma direção do cruzamento e sai dirigindo para outra direção. Ok, ele não vai exatamente para Deyr az-Zawr mas pelo menos deixou a gente mais próximo do destino. Agradecemos e começamos a procurar outra carona, e o sol já posto, porem, ainda não estava escuro. Rapidamente um pequeno caminhão, cheio de tapetes para e pede para subirmos. Sentados nos tapetes por alguns minutos, o motorista pede para descermos no que parece ser uma pequena vila, agradecemos e descemos no local.

Após alguns instantes algumas crianças com olhar curioso nos cercam, o número passa a crescer e adultos também nos cercam, todos falando algo incompreensível, mas não ficamos com medo, afinal o olhar de todos que nos cercavam era de curiosidade e entusiasmo por ver pessoa tão diferentes (e talvez meninas com o rosto e cabelos descobertos). De repente estávamos cercados por mais de 50 pessoas, mães com crianças no colo, pessoas saem das casas, todos com um enorme sorriso tentam chegar perto, eu me senti como em um filme, e as meninas passaram a tentar explicar, sem sucesso, que eles tinham que nos dar espaço para que pudéssemos pegar outra carona ao nosso destino final. Me arrependo muito de não ter registrado esse momento tão especial…

Depois de uns minutos de burburinho da população, um corredor se abre e passa um homem de moto acompanhado por outros, possivelmente o líder daquela aldeia e para a nossa sorte ele se aproxima muito amigável falando em inglês. Explicamos que queríamos carona, ele grita algo em árabe e todos passam a se afastar de nós com uma expressão de desapontamento, deveria ser o acontecimento do ano a nossa presença naquele local. Uma van aparece e quando dizemos o nome do destino, pedem para entrarmos. Finalmente estávamos indo para onde queríamos.

A van estava lotada de locais e sentamos os três no fundo, com nossas mochilas no colo, e nessa van tive a pior sensação que tive em toda viagem na Síria já que a maior parte da van nos olhava mas dessa vez não com um sorriso ou um olhar curioso, mas com um olhar de poucos amigos. Passaram a viagem inteira olhando para nós e eu jamais saberei o porquê, talvez porque eu sentei ao lado de duas mulheres (na síria só o marido pode se sentar ao lado da mulher) e também porque ambas estavam com a cabeça descoberta e apesar de isso ser comum e bem aceito em grandes cidades como Damasco por exemplo, estávamos no interior em cidades muito mais conservadoras e atrasadas.

Apesar dos olhares, ninguém fez nada e chegamos em alguma cidade. Sim! Era Deyr az-Zawr! Finalmente havíamos chegado e os problemas acabariam! Será? Ao descermos felizes da Van, já tínhamos perguntado com mímica para outro passageiro o valor, pagamos o que sabíamos que era o preço e nisso o motorista fica insatisfeito querendo mais, ficamos sem entender mas não estávamos dispostos a pagar mais quando chegam pessoas para ajudar e alguém traduz que ele queria o dobro por causa das malas. Ficamos inconformados já que viajamos bastante desconfortáveis com as mochilas no colo e falamos que não iríamos pagar nada a mais.

De repente, um senhor aparece e diz que ele era da Polícia e teríamos que pagar. Cercados, cansados e com fome, digo a ele que pagaríamos sim, mas apenas após falar com o consulado Brasileiro. Funcionou, eles viram que não estávamos dispostos a ceder e que não estávamos com medo e nos deixaram ir embora. Agora tínhamos que encontrar o hotel, já era escuro mas após pedir direções um pouco de sorte, encontramos o hotel, um hotel bem simples mas que parecia um sonho depois daquele dia maluco, e era um desfecho perfeito, já que o Francês e a Checa estavam lá nos esperando a algum tempo já que a carona que eles conseguiram foi completa e a ideia deles para encontrar um lugar para dormir foi exatamente como eu pensei.

Esse dia maluco e emocionante acabava e a minha viagem no Oriente médio também estava prestes a acabar. Mesmo assim achei um tempinho para esticar para as ruínas de Ephesus, em Selçuk na Turquia antes de pegar meu voo em Istambul. Essa foi aproximadamente a rota que acabei fazendo até Istambul desde que sai de Palmyra, e que durou cerca de 5 dias contando o dia nas Ruínas e 2 dias em Selçuk:
Rota de Palmyra a Istambul

 

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